| |
|
| |
|
 |
Ele tocou minha mão com um carinho desconhecido até para nós , que tanto e por tanto tempo nos conhecíamos. No início deu vontade de fugir, frente àquela possível armadilha criada por um sentimento que não se tem mais onde encaixar. Era uma tristeza bem resolvida, cheia de cumplicidade e silêncios - daqueles que existem por tudo já ter sido realmente dito.
Ele tocou minha mão com cuidado, encostou a cabeça em meu ombro cheio de respeito, e eu chorei. Ele não pediu explicações: enxugou a minha lágrima, me beijou a bochecha e deitou novamente a cabeça com tranquilidade em meu ombro esquerdo. Foi então que o aperto no peito e aquele vazio doce-amargo, de história bonita que chega a um fim sincero, foram se diluindo por entre as nuvens que a gente (literalmente) atravessava.
Surgiu uma paz até então também desconhecida, e um consentimento mútuo - selado sem palavras -, de que tudo o que se desejava daquele momento era permanecer juntos, suspensos no ar e alheios a qualquer passado, presente ou futuro. Tudo o que se precisava de verdade era existir, lado a lado, sem rótulos nem complicações. Não éramos ali homem e mulher, muito menos ex namorados. Naquele momento, éramos apenas pessoas, que se querem bem e sentem saudades sem pretensões.
1 hora depois pousamos. As mãos, que não tinham mais por que continuarem juntas, se despediram já sem tristeza, seguindo com naturalidade os caminhos que cada qual escolheu para si.
|
 |
 |
E então um dia eu acordei. Por acaso era de manhã e o meu pai estava sentado à beira da cama olhando pra mim. Não menos por acaso, era meu aniversário. Despertei, fitei seus olhos e instantaneamente entendi o que aquele silêncio – mais um dos densos silêncios do meu pai – insistia em me dizer.
Era algo como: “Filha, o tempo realmente passa”.
Acho que acordar com um olhar destes no meu vigésimo sexto aniversário me antecipou a crise dos 30 e ainda hoje, quase um ano depois, tento digerir aquele silêncio espremido por tantas entrelinhas.
|
 |
 |
“É preciso ter caos dentro de si mesmo para dar à luz uma estrela dançante”.
(Espero que esse tal de Nietzche saiba do que estava falando!)
|
 |
 |
É verdade, moça... Ficar só às vezes é muito chato. Mas não é que noutras pode ser o maior barato?!
Como quando sem quê nem porque se decide fazer uma viagem inesperada rumo a um lugar completamente desconhecido para visitar... ninguém. Assim, só por ir. Só pela vontade de não permanecer onde se estava, mesmo que isto signifique estar completamente só.
“Filha, você veio ao mundo só e é assim que vai embora.”
Pois bem, pai, foi pensando nisto que o meu feriado começou. Nas costas, uma mochila cheia de vazios - desses que não doem, mas enchem a gente de tédio. Pela mais absoluta necessidade, me assisti quebrar a rotina para pela primeira vez experimentar “o outro lado do sofá”.
É que depois de assistir tantas idas e vindas desses outros que passeiam pela minha casa tão à vontade com suas solidões,
me senti desafiada...
... e fui.
No fim das contas a minha mochila de vazios voltou para casa abarrotada de histórias surpreendentes, pessoas especiais, incontáveis sorrisos e possibilidades a perder de vista. E em meio a tudo o que ficou, o mais marcante foi essa percepção sutil de que existe uma diferença entre solidão e “sozinhez”.
Isso me fez sentir mais livre.
|
 |
 |
"O inesperado faz os corações dançarem mais."
|
 |
 |
Até os nossos fusos eram invertidos: quando eu amanhecia, o dia dele já estava acontecendo. O sorriso não vinha fácil, as palavras quase sempre engasgavam e eu fingia entender o que sentia por puro medo de admitir que nada daquilo fazia muito sentido.
|
 |
 |
Notou que quanto mais perto a gente chega, mais aumenta a distância entre nós?
|
 |
 |
Fome de mundo.
Vez por outra me dá a impressão de que em meio a tantos anseios, tanto porvir e tantas apostas no amanhã, eu acabo deixando o agora meio de escanteio, com uma cor ou encanto a menos do que deveria.
|
 |
 |
Meu filhotinho de jabuti se chama Hamilton, adora banana, só dorme no escuro e se esconde sempre que alguém novo se aproxima demais.
|
 |
 |
Não sei quantas almas tenho
Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.
(Fernando Pessoa)
|
 |
 |
Desculpa, eu sei que tanta intensidade merecia algumas linhas emolduradas por palavras belas e simples. É que alguns momentos insistem em dispensar palavras...
Ao menos dessa vez, deixo que a memória eternize a doçura da sua companhia.
|
 |
 |
quando as turbulências acalmam e o mundo se abranda, tão absurdamente em paz que parece em suspenso, me dá vontade de sacudir tudo novamente, levantar uma poeirinha qualquer ou futucar de leve alguma ferida, só pra não morrer de tédio.
( eu e essa mania de querer VIVER sempre em maiúsculo ... )
|
 |
 |
Era um ano com feições estranhas. Começou torto, cheio de entraves e dores, dessas que ninguém sabe bem o remédio certo. Começou com um céu acinzentado e um arco-íris a sorrir de ponta cabeça da vida que eu também insistia em manter revirada pelo avesso.
Foi um início com descobertas desconfortáveis, diferenças que gritavam ensurdecedoras e então, de repente, se calavam e tornavam-se ainda mais incômodas. Ano que começou no chão, rasteiro, de pés descalços e com a alma cheia de urgências.
Mas era só o início. Chegou então um tempo inesperado, anunciando que era hora de estilhaçar de vez a existência, me desfazer dos velhos moldes, abandonar pelo caminho objetos pontiagudos que eu insistia em carregar no bolso e me enxergar matéria bruta, pronta pra me transformar num algo com cores inusitadas e formas não planejadas. Fui então me desenhando com outros contornos, a imaginação ganhou fôlego e exclamações voltaram a brotar sem que fosse mais necessário fazer esforço.
2008 afinal de contas correu bem melhor do que prometia à primeira vista. Foi o ano em que aprendi a me poupar do indiferente e guardar fôlego para as fatias realmente sinceras de alegria. Ano de ponderar o sim e o não com o peso que merecem, sem deixar de, vez por outra, dar umas tacadas sem rumo para ver se descobria um horizonte desconhecido. Assim acertei, quase por acaso, esse 2009 sedento por acontecer.
Ao que tudo indica: bela jogada...
Fotos: Victor Uchôa
|
 |
 |
One Art
(by Elizabeth Bishop)
The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.
Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.
I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.
-Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.
|
 |
 |
descobrindo o natal entre irmãos:
- O que é isso?
- Pa-ne-to-ne.
- É pra quê?
- Pra comer.
- E tem que gosto ?
- De Natal, ué!
(pausa)
- Que nem Papai Noel?
- Claro que não... Papai Noel é bem melhor!
[ alguém vai discordar? ]
|
 |
 |
Chova ou faça sol, o Rio de Janeiro sempre me lava a alma...
|
 |
 |
Nossa história com cheirinho de banho tomado virou bola de sabão, ganhou o céu e estourou de repente, sufocada por tanto azul.
|
 |
 |
pouco te conheço...
Mas os entre-sorrisos, entre-linhas e entre-acontecimentos desse algo que nunca foi, mas parece povoar um imaginário entre nós, me deixou um tanto a vontade pra falar pra você sobre coisas que sinto forte demais e não encontro exatamente a quem recorrer.
(desculpa pelo susto... é que algumas madrugadas teimam em revolver minhas idéias mais tímidas e eu acabo por escancarar certas portas entre-fechadas)
|
 |
 |
Para que você me entenda
Para que você me entenda talvez não seja preciso muito, mas uns poemas-chave até que seriam de grande valia. Cecília, Quintana, Clarice, Pessoa e Kundera, por exemplo, podem ajudar.
Já de cara, aqui vai um conselho: na dúvida sobre como lidar com minhas esquisitices, pede a opinião do meu irmão - ele sabe como ninguém o que me irrita e o que me faz feliz e vai saber traduzir pra você minhas mais loucas reações.
Se for pra me agradar, já vou adiantando que não se ocupe de grandes gestos. Uma frase bem posta ao pé do ouvido é mais que suficiente pra eu nunca mais te esquecer.
Pra me entender de verdade, sugiro que observe com cuidado o silêncio do meu pai. Vê como a gente se comunica de entrelinhas e se nutre de um amor silencioso, por não haver mesmo palavras que o traduzam. Entende assim, de uma vez por todas, que por mais que eu ame as palavras, elas nunca vão substituir o beijo despretensioso ou o cuidado com o cobertor no meio da madrugada. Sim, pequenos gestos são imprescindíveis.
Ah... Presta também uma atenção redobrada à minha mãe. É que vem dela o sorriso que você normalmente vê estampado em meu rosto. É dela também o brilho nos olhos e toda a emoção que me toma sempre que o mundo me toca a alma. Veio dela essa minha mania de falar, falar, falar e fazer certa questão de que você ao menos finja me ouvir.
Não deixa também de olhar com cuidado a minha irmã; mas olha de perto, pra não deixar escapar as coisas que ela provavelmente vai tentar esconder de você (e do resto do mundo). É que pra ela não é fácil deixar-se assistir, mas só assim você será capaz de entender a dimensão do meu lado que sonha.
No fim das contas, pra saber quem eu sou de verdade, seria interessante espiar um pouco os meus ex-namorados. Com o primeiro você vai entender minha adolescência, meu humor, meu desembaraço inusitado em certas situações e um punhado dos trejeitos que carrego. Com o segundo você talvez entenda a minha calma, minha crença absoluta no futuro, minha sede de liberdade e como a palavra responsabilidade passou a ter tanto significado pra mim. Com o terceiro, você vai descobrir que eu também sou feita de impulsos.
Mas se quiser me revirar pelo avesso e encarar mesmo de frente toda matéria de que sou feita, me faz um favor: pára por aqui, me encontra no bar da esquina, puxa uma cadeira e senta entre os meus verdadeiros amigos pra uma prosa despretensiosa, dessas que sempre acabam por revelar muito além das mais rebuscadas definições.
|
 |
|
|
|