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Um certo dia, a mais ou menos quatro anos atrás, recortei do jornal uma crônica que, não sabia ainda dizer por que razão, me intrigava. Guardei-a comigo esse tempo inteiro, dentro de um caderno empoeirado de anotações. Trancafiada no meu baú, essa crônica pouco a pouco foi se fazendo entender.
À medida que minha vida trilhava um caminho completamente diverso de tudo o que eu acreditava provável, esse texto foi ficando mais, e mais, e mais nítido, até que hoje, como num estalo, lembrei dele e senti a necessidade de o reler.
Muito pelas poucas palavras, cheias de importância, que troquei com um alguém. Muito pelas curtas frases cheias de sentido, cheias de verdade, e cheias de razão que trocamos num percurso que tinha tudo para ser estranho, mas foi apenas confortante e esclarecedor. Muito por ter conseguido redimensionar os danos, analisar as situações e, ao fim da história, me sobrar um tímido alívio de quem nota que o saldo dessa bagunça toda em minha vida, afinal, é um sorriso sincero. Por tudo isso hoje entendo o que antes não me era possível enxergar.
Naquele tempo, a quatro anos, não acreditava na mensagem que essa crônica insistia, prematuramente, em me ensinar. Hoje sim ela me cabe. Hoje sim eu a entendo. Hoje eu enfim acredito nela. E pelos novos começos que se tornam possíveis depois que "o amor acaba" é que hoje estou assim ... novamente feliz, novamente aprendendo a ser completa; assistindo o amor recomeçar em mim.
Enfim, aqui vai a crônica, escrita por Paulo Mendes Campos e publicada no caderno Mais! da Folha de São Paulo:
O amor acaba
O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.
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(de toda essa gratidão que fica, enquanto eu me vou)
Hoje me peguei rondando meus pensamentos a procura de uma resposta para a mesma, básica e essencial pergunta que me fazia a exatos 4 anos atrás: Que diabos estou fazendo aqui?
Durante meu percurso até aqui, muitas foram as pseudo-respostas que, desesperada, inventei para acalmar minhas inquietações. Poderia citar algumas delas, mas desde já adianto; seriam absolutamente inúteis. Totalmente desnecessárias, realmente, visto que até hoje não me satisfiz completamente com nenhuma delas. Mas estranhamente, não me sinto mais perdida.
Quanto ao meu destino eu não sei (e quem se atreverá a dizer que sabe?), mas hoje carrego ao menos (e isso não é pouco) a convicção de que o caminho que escolhi traçar não poderia ser mais gratificante.
Muitos foram os momentos de dúvida (incontáveis... insondáveis...tantas vezes agonizantes e silenciosos), mas dentre as poucas certezas que consegui colecionar até hoje, está a de que, independente de qualquer sacrifício, falta de rumo, independente do quão perdida já tenha me sentido nestes quatro anos, enfrentando essa faculdade, o que sempre soube foi que nunca estive só. E por isso, talvez apenas por isso, eu tenha aguentado até hoje o peso de todas as minhas questões e ansiedades, e chegado até aqui.
Hoje é o último dia de uma fase. Hoje eu me despeço destes grandes motivos que me levaram a chegar a este ponto do caminho. Hoje é meu último dia de aula com vocês. A partir de agora, seguirei uma estrada desconhecida, não terei tanto apoio tão perto de mim, e ao voltar, terei que me apegar a novos motivos para não desistir dessa jornada na qual já fui tão longe.
O que tenho pra dizer hoje, é simples mas indescritivelmente sincero. Em uma palavra agradeço a todos vocês pela força que me deram nas mais diversas (e adversas) situações. Resumo nessa palavra meu amor, meu respeito, amizade, gratidão, a saudade que levarei, o apoio que também carrego, e a certeza de que por mais sofridos que tenham sido alguns trechos dessa passagem de minha vida, ela não foi em vão simpplesmente por ter me concedido o bem mais precioso que carregarei dessa faculdade; vocês. Por tudo isso, e por tudo o quanto há (e muito há) de indizível, resumo o que quero dizer dessa forma modesta, mas verdadeira; pessoal, MUITO obrigado.
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(das coisas que o mar me faz pensar)
Uma vez me disseram que o horizonte está, sempre, a aproximadamente 6 quilômetros de nós. E a partir de então, mesmo sem saber se a informação é verdadeira, passei a respeitá-lo um tanto mais.
Hoje, olhando o mar, lembrei-me disso. E então encarei aquela linha longa, tão cheia de mistérios por inalcançável que é. E senti um conforto esquisito por saber nunca poder tocá-la e, ao mesmo tempo, senti-la eternamente ali; assim... a uma distância fixa, imutável; não tão grande a perder de vista, nem tão curta a invadir-me o espaço.
(foto descaradamente "emprestada" do fotolog de Alan :-) Espero que não se importe, lindo.) --> Ah! Para os curiosos - ou invejosos-, essa é a vista do quarto dele! rss...)
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Digamos que nessa cabaninha cabe um tanto desse "excesso" de novidades que, de repente, aconteceram em minha vida, e que eu prefiro chamar de "felicidade repentina" (como se felicidade tivesse hora pra acontecer). :-)
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Novidades em excesso, e falta absoluta de tempo pra partilhá-las por aqui ... (muito em breve isso não será mais problema e eu conto tudo, prometo!).
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"Talvez seja uma das experiências humanas e animais mais importantes. A de pedir socorro e, por pura bondade e compreensão do outro, o socorro ser dado. Talvez valha a pena ter nascido para que um dia mudamente se implore e mudamente se receba. Eu já pedi socorro. E não me foi negado.
Senti-me então como se eu fosse um tigre perigoso com uma flecha cravada na carne, e que estivesse rondando devagar as pessoas medrosas para descobrir quem lhe tiraria a dor. E então uma pessoa tivesse sentido que um tigre ferido é apenas tão perigoso como uma criança. E aproximando-se da fera, sem medo de tocá-la, tivesse arrancado com cuidado a flecha fincada.
E o tigre? Não, certas coisas nem pessoas nem animais podem agradecer. Então eu, o tigre, dei umas voltas vagarosas em frente à pessoa, hesitei, lambi uma das patas e depois, como não é a palavra o que tem importância, afastei-me silenciosamente."
(para aproximar-me pouco depois, já curada e não mais hesitante. Obrigada sempre, meu lindo).
P.S.: O texto é de uma crônica, chamada "Uma experiência", de Clarice Lispector. Mas o tigre .... esse um dia fui eu mesma (aliás ... acho que cada um de nós carrega seu dia de "tigre flechado" na bagagem ... ).
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de uns motivos para estar feliz
Nasceu um novo tempo, e eu nem estava atenta.
Nesse mesmo lapso, me redescobri envolta em um passado (bem presente) de amizade e bem-querer.
Nunca duvidei do "vir a ser". Nunca desacreditei que um dia as coisas boas poderiam, sim, bater à minha porta sem qualquer convite, e invadir todo o meu território.
Só não imaginava que isto pudesse acontecer agora.
Depois de um feriado como esse, cheio de contos, sorrisos, surpresas, amigos, segredos e excessos, eu finalmente notei que não existe razão para me sentir mal. Quase nunca. E o "vez por outra" ao qual me permito tal luxo tem que ser temporário, rápido e consciênte.
Tudo isso, porque tenho amigos. Tudo isso porque tenho amores. Tudo isso porque cada uma dessas pessoas que estiveram ao meu lado nesses dias, sabe me completar um tanto que nem eu saberia.
A história da minha vida tem muito a ver com a história deste meu feriado. Cheia de um passado gostoso do qual não quero jamais me desfazer, e insinuante quanto a um futuro que já começou a acontecer, e no qual tudo que de melhor carreguei até aqui, cabe perfeitamente.
Buneko, Kilpp, Irmana, Tchuca, Ninho, Kinha, Sandy, Su, e tantos outros e outras que entraram e saíram desses momentos hilários, ou cheios de saudade acumulada, transbordantes dessa felicidade por se saberem eternos; agradeço a vocês por cada instante dessa nova história, que entra pro nosso baú de incontáveis recordações. Amo muito cada um, e indescritivelmente todos juntos.
(É, bunequinho ... as historinhas engraçadas, os momentos gostosos e a felicidade de se estar mais uma vez entre quem sempre se amou foram tantos e tão recorrentes nesses dias, que não pude atender seu pedido e contar os pormenores do fim de semana ... até porque tem coisas sobre as quais não se deve nem comentar, né? Rs.. Bjo! Te amo, e quero frizar que a sua presença foi essencial, amigo lindo. Te tenho no coração desde muito cedo, e vc sabe disso, né? Resgatar esse convívio foi indescritível!)
Ah! Buneko Léo : se porventura chegar a ler isso aqui: FALTOU VOCÊ POR LÁ, amigo! Mas tudo bem ... acho que vc não vai sentir muita inveja, já que durante o feriado estava "ali", na França ... rsss.. Beijos e saudades d´ocê!
P.S.: Os motivos lá de cima, do título, estão longe de se esgotarem nesse trechinho curto de toda a felicidade que tenho sentido. Aliás, falta nisso aqui um pedaço LINDO de tanta felicidade transbordante, mas isso já é assunto (e põe assunto nisso...) pra um novo texto... : )
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