Mãe,
São 4 da manhã, e eu não estou conseguindo dormir. Tinha que ter resolvido um monte de coisas nesse fim de semana, decidido minha vida pra de manhã dar o aviso de que sairia da casa, etc. mas não consegui acertar nada ainda. Minha cabeça tá toda confusa, não sei ao certo o que fazer.
Esses últimos dias têm sido meio difíceis pra mim, acho que juntou tudo; saudades de casa, a consciência de que isso aqui não é pra sempre, o medo que dá por notar que daqui a pouquinho todos os meus amigos estão voltando e eu vou ficar por aqui sozinha... uma impressão de que posso estar fazendo as coisas de forma errada, ou aproveitando de forma errada... um medo grande de voltar pra casa misturado com MUITA vontade de voltar pra casa...
Ultimamente tenho pensado bastante no que vou fazer quando chegar aí. Tenho me sentindo estranha, sem perspectivas, sem objetivos. Quero chegar logo, acabar logo essas faculdades, dar um rumo de vez em minha vida, e nem sei ao certo por onde começar. Estou com medo de estar falhando por aqui, em meus objetivos de viagem (que hoje em dia nem sei mais exatamente quais eram).
Na verdade na verdade, mãe... acho que o que está pegando é o medo de estar pela primeira vez completamente só. Meus amigos estão começando a se despedir, alguns já se foram, vocês não estão aqui do meu lado, e caiu a ficha de que toda essa experiência que eu estou vivendo vai passar em breve, vai embora, acaba mesmo. E depois? O que acontece depois? Depois eu acho que é esperado de mim retornar com algumas respostas, mas... cadê elas?
Engraçado isso que o humor faz com a gente... A cidade de repente parece ter amanhecido mais cinzenta que o normal, e isso (que antes era charme) agora me incomoda. O frio aos poucos está voltando. Me dei conta de que a primavera passou faz muito tempo e eu não cheguei a tirar a prometida fotografia florida no jardim do parque (agora é tarde - as flores não estão mais lá, e quando voltarem quem vai ter partido sou eu).
Tenho me sentido meio angustiada com esse tanto de coisas apertando o coração, esse turbilhão de saudades do que deixei por ai, somado ao outro tanto de coisas que começam a se despedir de mim por aqui tambem.
Mãe, não fica preocupada comigo. Desculpa te mandar um email assim... Nem sei se devia, não queria te preocupar a distância. Só estava precisando desabafar um pouco desse monte de coisas que me incomodam e não estou sabendo como aliviar, mas que com certeza fazem parte do meu aprendizado. Sempre soube que as coisas não seriam fáceis, que em alguns dias eu teria vontade de chorar, de arrumar as malas e voltar pra casa. Sempre soube que as coisas não sairiam sempre conforme o planejado, e que me sentir perdida seria o primeiro passo pra começar a procurar meu caminho. Sempre soube que saudade não mata, e que ela ia bater mais cedo ou mais tarde a minha porta, e apurrinhar o meu sono... sempre soube disso tudo, mas é que por mais que se tente prever a dor, quando ela acontece a gente se surpreende e tem vontade de pedir colo de mãe (e só ele resolve).