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Vitrine de mim


Por mais que eu resista, que insista, que eu negue.
Por mais que eu não queira, me prenda e me apegue:
2005, hoje, fica pra trás.

Passam o tempo, as horas, os dias, os meses e hoje, em específico, passa o ano. Passam momentos, conquistas, derrotas, novidades e passam também aquelas velharias que realmente mereciam ter sido largadas lá atrás. Mas há também aquele tanto imenso que fica... aquele monte de coisas às quais a gente segue agarrado, abraçado, encrustadas que já estão sob o que a gente se tornou. Aqui com a gente, numa trouxinha amparada nos ombros ao pular as ondinhas na noite da virada ficam as memórias, sorrisos, histórias...ficam os amores conquistados, verdades descobertas, máscaras desfeitas e amigos selados.

Cada qual vem receber o ano que chega com uma maletinha a tiracolo, repleta de pequenas e grandes coisas que conquistou no ano que passou. No meu caso vou levando, agarrado às costas, um mochilão gigante que, apesar dos cinquenta litros, me faz sentir mais leve que nunca, e gargalhar ao tentar "dançar reggae" num aeroporto qualquer. Fica uma parte linda da minha família que tive a sorte de conhecer do outro lado do oceano. Ficam os meus novos irmãos, pessoas que dividiram comigo não só o teto, mas uma experiência de vida inesquecível.

De 2005, vou carregar um gostinho doce de biscoito de chocolate (bourbon cream!). Levo histórias simples, do dia a dia duma casa por si só um tanto peculiar. Levo também momentos extraordinários, viagens extravagantes e muitas risadas quando se deveria chorar. Levo uma janela gigante no meio da sala, passeios noturnos sem quê nem pra quê, e um tipo de cumplicidade com pessoas próximas que só se ganha mesmo quando a distância e a saudade apertam. Em 2005 eu ganhei novos ares. Ganhei um piercing no nariz, e uma alma inteira tatuada de lembranças. Ganhei muito mais do que minha imaginação um dia desejou, dei passos além dos que planejei, errei em momentos que pensei pudesse "tirar de letra", mas fui à forra quando venci um tanto de obstáculos, tão temidos num passado recente.

O ano do qual me despeço hoje me trouxe cores novas, cheiros únicos, alegrias indefiníveis. Trouxe sensações que eu não esperava, momentos que eu não esperava, e a realização que, sim, eu por tanto tempo esperei. 2005 foi um ano de sonhos. Um ano de quebrar fronteiras, quebrar barreiras, ir onde a vontade chegasse e a consciência aprovasse. Foi ano de estar só entre multidões e me sentir muito bem acompanhada. 2005 me trouxe a um 2006 de grandes decisões. Me manejou por caminhos improváveis para esse que será, provavelmente, o início do resto da minha vida. Chego aqui feliz. Chego aqui completa. Chego aqui com o sorriso de quem descobriu um mundo não só lá fora, como aqui mesmo dentro de mim. Que venha 2006, com todas as suas responsabilidades, todas as suas cargas e compromissos, pois hoje, sim, depois de deixar o ano que passou acontecer com toda a sua intensidade, eu me sei preparada para qualquer coisa.

A todos os amigos, um FELIZ ANO NOVO !



Esta noite eu acordei em casa.


No meu quarto, as mesmas antigas fotos penduradas na parede. Vindo da cozinha, o mesmo cheirinho bom de comida temperada. No quarto ao lado, o colo de mãe e o pulso de pai que eu não sentia há tempos. Hoje eu tomei coragem e saí de casa. Pisei na rua, a mesma rua da minha infância. Percorri os mesmos caminhos de tempos atrás - me deparei com pessoas amigas, rostos conhecidos, abraços saudosos.

Hoje eu resolvi problemas, fiz compras, abracei a minha avó, assisti tv com o meu irmão, reabri minha matrícula da faculdade, ouvi músicas antigas, consegui um estágio novo e planejei o final de semana.

Tudo aparenta fluir. Pareço remendar um novo pedaço de vida àquele que restou aqui, suspenso, meses atrás, à minha espera. Mas as coisas não se encaixam mais com tanta exatidão ... e por mais que eu me esforce, no fundo no fundo ainda suspeito que não pertenço exatamente a esse lugar...

(Feliz? Sim. Por muitos motivos. Confusa, por outro lado, também - o que não é novidade alguma. A saudade, no entando, é a pedrinha no sapato ... um incômodo doloroso, inevitável, difícultando qualquer caminhada que se faça).








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