Orkut Visite meu Baú de Espantos Conheça o Vitrine de Mim 2.0

Vitrine de mim




Você

Você já foi pequenino. De vez em quando me oferecia um pedaço do lanche e foi o primeiro da turma a aprender a escrever. Você também já foi bronzeado, tinha cabelos compridos e jogava futebol. Você gostava de halls, usava aparelho e não me dava a menor bola. Você já morou perto de mim, tinha um monte de irmãos e de repente foi embora. Você já estudou na sala da frente, e eu esperava o fim das aulas pra te ver. Você sorria pra mim. Nessa época você era alto, falava pouco e me deixava sem jeito. Um tempo depois, você virou descoberta. Era inocente, e me escrevia muitas cartas. Falava de coisas que eu ainda não entendia e invadiu a sala de aula pra me dar um imenso buquê de rosas. Você quase me mata de vergonha. Você virou memória.

Logo depois você apareceu diferente. Tinha quase a mesma altura que eu, os olhos esverdeados e contava piadas. Você me deixava sentar por perto todos os dias, e esses dias se multiplicaram. Você tinha os dentes tortos e eu achava lindo. Você dançava sem vergonha, dirigia devagar, gostava de pizza de calabresa e de tomar umas cervejinhas comigo. Você tinha ciúmes, amor desmedido e uma risada irresistível. Você tinha quase tudo. Mas não foi suficiente. E o tempo passou.

A partir de um momento você virou aquele que jogava capoeira, tinha uma tatuagem no braço e queria aprender a surfar. Você me ligou e eu tive dor de barriga. Você me deixava nervosa. Você gostava de chocolate, era caladão e tinha vício por Mc Donald´s. Uma vez você me deu um ovo de páscoa bem grande - um sonho de valsa. E eu, que nem gosto de sonho de valsa, fiquei tão feliz que comi pedacinho por pedacinho. Você me surpreendia o tempo inteiro. Mas esse tempo inteiro não durou quase nada.

De repente você ressurgiu, imprevisível, numa terra estranha. Era abril e eu nem estava a sua procura. Você estava ali, encostado no bar, e tinha bastante sotaque. Seu cabelo era preto e, se não me engano, você também vestia preto. Gostava de tequila, Black Music e Los Hermanos. Tinha as melhores sacadas do mundo e a arte de me fazer gargalhar. Mas você não tinha certezas. Me deixava no ar, com um vazio esquisito e uma lista de perguntas sem respostas. Então, pouco a pouco, você foi se tornando lembrança. Virou promessa e saudade. Ao final, você se tornou distância. Muita distância. E desapareceu.

Até que um belo dia decidi te recriar. E reinventei você nos moldes dos meus sonhos. A partir de então você era segurança. Era colo, abraço apertado, esperança e a certeza que eu tanto precisava. E você acreditava em nós dois. Você não sabia dirigir, tinha uma história só sua e eu te admirava. Você gostava de música eletrônica, fumava de vez em quando e sabia exatamente o que queria da vida. Você não era ciumento, morava longe e não tinha muito tempo pra mim. Você tinha tatuagens, a barba por fazer e um All Star vermelho.

Tudo parecia perfeito até que, sem quê nem porque, mais uma vez olhei ao redor e como num passe de mágica você tinha sumido. Hoje, sem urgência alguma, provoco a minha curiosidade, tentando adivinhar: e desta vez, onde será que você se escondeu?


Odeio meias palavras.

Palavras engasgadas, amontoadas, entaladas, prontas pra serem cuspidas e que, por um motivo que a gente quase nunca entende qual foi, simplesmente ficam conosco, povoando esse imaginário que a gente cria; esse universo gigantesco de situações "e se?".

E assim a gente insiste em acontecer, tantas e tantas vezes.. Traduzimos atitudes alheias de forma aparentemente óbvia, e criamos expectativas. Ou conclusões. Ou verdadeiras "certezas", daquelas que só nascem para morrer no instante seguinte. Tenho essa mania incômoda de vagar por entrelinhas que nem sempre existem (me sinto tão boba vivendo esse tipo de situação.. )

(Engraçado como esse desabafo parecia sufocante. Encontrei-o perdido, ao acaso, sem data. E apesar de sincero, não faço a menor idéia do que se tratava. Acabo de notar como os sofrimentos, na maioria das vezes, são superestimados)











Site
Meter