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Vitrine de mim


Não faz muito tempo e já parece uma vida.
Um dia desses (ainda podemos contá-los às dezenas..) os motivos mais improváveis me fizeram entrar em erupção, assim, na tarde aparentemente trivial de uma quarta-feira qualquer. Foi assim, sem querer, que os meus sentimentos se imbuíram de uma força tão grande, tão violenta, tão urgente que não fui capaz de medir palavras.

Te olhei nos olhos, e desta vez depois de muito tempo eu sabia exatamente porque chorava. Você me abraçou, pois ainda não fazia idéia dos motivos da minha dor.
Foi nosso último abraço.
Você perguntou do que se tratava, e eu fui sincera.
Talvez sincera demais.
Não existiam fatos; sobravam constatações.

Foi então que trovejei palavras.
Elas não me saíam, simplesmente, da boca; pareciam saltar, desesperadamente, direto daquela garganta, a tanto tempo cheia de nós. Saltavam pontiagudas, como flechas. Voavam e passavam por você de raspão. Retornavam então na minha própria direção, me atingindo em cheio. Eu era meu próprio alvo. E as minhas palavras doeram em mim como nunca, estilhaçando o resto de esperança que um dia eu depositei na gente.

Eram palavras descontroladas, inundadas, sufocantes, que insistiam em ganhar vida própria a traduzir sentimentos que nossos gestos já vinham denunciando a tempos mas que, talvez por simples amor (o mais simples de todos; aquele que sempre restará mas nunca mais será suficiente) não ousamos admitir.

Existia entre nós esta imensa trouxa de verdades intocadas que nos convencemos, por respeito à nossa história, a acreditar serem intocáveis. Pois bem; não eram. E eu me traí. Sentei ao seu lado, tremendo de medo e, sem saber direito o que fazia, expus os limites desse "nós dois" que criamos. E esse "nós dois" já existia a tanto tempo, que não era confortável assumir que existiam limites. Mas eles estavam ali, por todos os lados, e já não nos deixavam mover em nenhuma direção.

O tempo criou vazios. Criou diferenças, distâncias, conflitos e abismos.
O tempo passou em paralelo para nós dois, mas as fôrmas que ele usou pra moldar o que nos tornamos não são compatíveis.

Então, deve estar se questionando: as coisas não deveriam ter sido simples? Na verdade, sabemos que o foram. Talvez até demais.

Por instinto, à sua frente, espremi com força todo o meu coração. Torci ele até a última gota, e te mostrei cruamente do que sou feita. Pus numa bandeja tudo, absolutamente tudo, o que eu tinha para oferecer. E, com isso, o que não existia mais em mim também ficou claro. Juntos, em silêncio, julgamos que o que estava exposto não nos seria suficiente.
E nos demos um adeus completo, sem palavras por dizer.

Estranho o rumo que as histórias tomam na vida da gente.
Vez por outra não resisto em refletir a partir de quando nos tornamos assim, tão absolutamente inviáveis...


"Não se brinca com as metáforas. O amor pode nascer de uma simples metáfora".

Em sequência após os inquestionáveis "Memórias de minhas putas tristes" (García Marquez ), "Intermitências da morte" (Saramago) e "Mentiras no divã" (Irvin D. Yalom), Milan Kundera ainda assim não teve dificuldade em me arrebatar já nas primeiras páginas de "A insustentável Leveza do ser". Definitivamente, raras coisas conseguem me tocar como a literatura...











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