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Ontem à noite Fernando Pessoa me cochichou um troço que me deixou encucada:
"Não se pode comer um bolo sem o perder".
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A minha alma foi mudando pouco a pouco, mas isso eu só fui perceber assim; de repente. É que os bons livros sempre me reviram do avesso. E me deixam desse jeito um tanto aérea, com a sensação de que nada a partir de então será mais sentido da mesma forma.
Foi assim com A insustentável leveza do ser; uma brisa leve acariciou o pedacinho mais sensível da minha existência, me contorcendo os sentidos. O sorriso de Karenin me fez chorar, e a partir de então nunca mais fui a mesma.
Nos últimos meses, em sequência, vieram A brincadeira, Mentiras no divã, Intermitências da morte, Memória de minhas putas tristes, Apanhador no campo de centeio, A menina que roubava livros, Coiote, On the road e agora mais essa: O dia do Curinga.
Um após outro parece que vou tecendo, ao mesmo tempo, um caminho sem volta e uma busca sem fim. E me sinto um pouco perdida num meio qualquer dessa coisa chamada vida, que a cada nova página parece se reconfigurar bem debaixo dos meus pés.
Hoje, procurar sentido não me faz mais sentido: tenho sede de atitudes que palavras não alcancem.
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sabe... mais angustiante que qualquer sofrimento solitário,
é ter que amparar sozinha essa alegria tamanha que, por mais que eu tente,
não cabe
em mim.
(as dores eu até carrego só, mas a felicidade pede sempre certa cumplicidade)
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Decidi trilhar os caminhos menos prováveis. E desde então, uma por uma, cada segunda feira tem me dito algo novo. A cada sexta, um alívio diferente. Anseios, medos, vontade de estar mais presente do que a simples presença.
Engraçado como simplesmente estar ali pôde me fazer feliz.
Me sinto um pouco só.
Sem portos seguros.
Mas até esse incômodo me fascina.
Frio na barriga, degrau ante degrau, início de mais uma etapa meio louca de vida, entre pessoas que estão começando agora a me conhecer... e que, sem sequer notar, fazem meus dias adoravelmente imprevisíveis.
Vez por outra nem me identifico, mas me encaixo perfeitamente. Muitas vezes não entendo, mas alcanço. Toco. E quero estar por perto, talvez pra testar o que sou, o que quero e cada milímetro dessa vida que me ronda e nem sempre me deixa a vontade.
[ leve. pairando sob um punhado de novas possibilidades de conquista. qualquer dia desses eu jogo ao vento todas as minhas pseudo-decisões. quero viver o dia de hoje como se começasse do zero. como se todos os caminhos ainda me fossem possíveis - pois realmente acredito que o são ]
(Vale do Capão - Chapada Diamantina - Bahia. Foto e texto: abril de 2007)
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eis que aquele que tinha tudo para ser um dia qualquer foge ao controle e se torna mágico. e aquela pessoa que também teria tudo pra passar despercebida, por um motivo que não se entende direito resolve fazer diferente, e se tornar importante. assim, da noite pro dia. e chega deixando um rastro, um cheiro, um lugar, um sabor, uma música e - vai entender - uma cor. parece que a vida mais uma vez insistiu em insinuar que as histórias não precisam durar muito pra significar tanto.
estranho esse vazio, essa saudade quase sem sentido, de quem na verdade sente mais falta do que poderia ter sido do que o que realmente foi.
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