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enquanto o amanhã não chega
enquanto o amanhã não chega, eu me preparo. arregaço as janelas e aposento as cortinas. deixo entrar todo o vento do mundo, a varrer os restos de poeira que porventura tenham se escondido num cantinho qualquer de vida.
enquanto o amanhã não chega, eu rascunho algumas novas histórias. sem pressa, sem urgencia, sem medo, sem necessidade. cheia de vontade.
o amanhã demora um pouco a despontar, mas sou paciente o bastante (aprendi que vale a pena aguardar. sempre valeu).
enquanto o amanhã se espreguiça, eu arquiteto. imagino, projeto, procuro. saio fuçando cada um dos meus baús. reviso os erros, retalho as dores, refaço planos. reformo a casa, organizo idéias, tiro toda sujeira de baixo do tapete. reposiciono os móveis, viro os quadros de ponta-cabeça e tomo um cafezinho (afinal, ninguém é de ferro).
enquanto o amanhã não chega eu compro uma agenda nova na intenção de me redefinir. pra começar, estabeleço outras metas. rabisco desejos, confesso segredos e passo os telefones a limpo. depois de descartar tudo o que pesa, eu fecho os olhos e danço. assim, em silêncio mesmo. e quando a música faz falta, eu canto. assim, desafinando mesmo.
enquanto espero esse amanhã pirracento, eu tiro os sapatos. me esparramo no sofá, como pipoca e levanto antes do filme acabar. ganho o mundo. perco o rumo. me despenteio, rôo as unhas e resmungo. cumprimento um desconhecido na rua e ele me sorri. páro de resmungar.
enquanto o amanhã não chega, eu compro uma caixa enorme de lápis de cor, escondo os relógios, mudo de perfume e escolho um vestido verde para usar. me olho no espelho e acho graça. na imagem que vejo, reconheço muito da menina de ontem. a alegria, no entanto, é completamente outra.
enquanto o amanhã não chega, reinvento a felicidade.
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