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No começo eu tinha medo do seu medo.
Depois veio uma certa raiva, vontade insuportável de soprar pra longe cada uma das lágrimas que te vi chorar sem entender de onde vinham. Foi então que me tornei frustração, inundada pelo desejo vão de domar suas aflições, abraçar sua fragilidade e afugentar os fantasmas que teimavam em rondar o seu sono, mesmo quando o resto do mundo imaginava que você dormia em paz.
No silêncio do quarto partilhado, só eu assistia tão de perto a agonia de suas noites mal dormidas.
O seu medo sem nome ecoava no abismo que a idade impunha entre nós duas, me obrigando a fingir dormir enquanto você rascunhava à meia luz sentimentos que parecia não compreender direito. E eu ouvia seu choro em silêncio, contendo o desejo de um abraço apertado, no receio de te sufocar de vez.
Aos poucos assisti sua coragem crescer, vencendo uma a uma as batalhas que você travava contra si mesma. E então muito cedo, entre silêncios e escuridões, sem mesmo notar, você me ensinou que por mais difícil que pareça, não se pode permitir que o medo paralise a vida.
Encara, pois, as armadilhas que novamente se insinuam madrugada adentro e reaprende a domar esses monstros que a cabeça vai sempre insistir em produzir.
Hoje nossas noites habitam quartos diferentes, a idade é irrelevante e o silêncio, esse eu me permito quebrar, a começar por um abraço desses de esmagar a alma...
Te amo, irmã.
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Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me ficar quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste.
Resolvi também revisitar alguns escritos e me deparei com esse poema de Pessoa que você me deu - lembra? Engraçado como ele hoje (se) fez ainda mais sentido.
Cheguei a agradecer? :)
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Me sinto o tempo todo uma inocente me debatendo nas paredes de uma piada de mau gosto. Só queria achar a saída e rir por último. Como se eu tivesse tamanho ou força pra peitar assim as coisas como elas são. Ser humano é constatar nosso tamanho ridículo perto das coisas como elas são. Ser humano é a coisa mais linda e sábia a se fazer. Mas ser humano dói em mim de uma maneira tão especial e absurda e assustadora que, em meio a toda essa auto-estima de merda, ganho certa arrogância.
(...)
E lá vou eu voltar pra mim e esperar algum saudosismo, escondida atrás da minha porta, com a arma na mão. A porta com todos os trinquinhos. O olho mágico vendo o escuro eterno das pessoas que desistem porque até eu mesma sempre desisto.
(Tatiane Bernardi)
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Para meu coração um peito só não basta.
(Edson Marques)
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Desde pequena ouço dizer que em minha terra as estações se dividem entre inverno e verão. Nos últimos tempos resolvi acreditar que a primavera também podia florescer por aqui... (acho que me enganei).
É por isso que ainda insisto em cultivar, junto às rimas, minhas próprias rosas.
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de vez em quando vejo nascer uma alegria sem freios, dessas que inundam tudo cá dentro e exigem que a gente respire rasteiro, pra não acabar explodindo...
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Não é só García Márquez quem me faz sentir falta de coisas que não vivi: dia desses me surpreendi cheia de saudades do cheirinho de jasmim dos seus veraneios.
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ainda há tempo.
ao que tudo indica a vida permanece à espreita,
esperando apenas que você se posicione
pra gritar "valeu!"
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quase explodindo,
com vontade de jogar toda burocracia pelos ares
e me ocupar exclusivamente de viver.
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García Márquez me faz ter saudades de coisas que nunca vi.
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- Você é muito livre.
- ?
- Eu também sou, sabe... mas você é demais.
O tom estranho, entre a aprovação e a reprimenda, me deixou sem reação.
... e desde então ando às voltas com essa história de excesso de liberdade, sem concordar ao certo que isso possa existir.
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Nossa história é assim azul,
com cheirinho de banho tomado, gosto de cupuaçú com morango
e recheio de saudade boa...
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Pela enésima vez revisito esse texto de Paulo Mendes Campos, no qual algo (sempre) me salta aos olhos num tom diferente:
"Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. 'Quem sou eu no mundo?' Essa indagação perplexa é o lugar-comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares esta charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta. O importante é dar ou inventar uma resposta, ainda que seja mentira."
(essa me pegou desprevenida)
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Vê só que estranho: quintanear pode ser bem mais fácil que viver.
É que enquanto nas palavras dele os caminhos teimam em descansar, a minha vida chacoalha na cadência louca de inúmeras possibilidades imprevisíveis que as esquinas da vida vão revelando "até que possíveis".
A confusão maior surge quando toda poeira sobe de uma só vez e minha vontade, no fundo, é ficar quietinha trancada em meu mundo até que o acaso lá fora decida por si só onde devo pisar.
(a vida vez por outra resolve pulsar numa cadência assombrosa, me pedindo respostas que acredito sinceramente nunca ser capaz de dar)
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Os caminhos estão descansando.
(como é bom quintanear ...)
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