Era um ano com
feições estranhas. Começou torto, cheio de entraves e dores, dessas que ninguém sabe bem o remédio certo. Começou com um céu acinzentado e um arco-íris a sorrir de ponta cabeça da vida que eu também insistia em manter revirada pelo avesso.
Foi um início com descobertas desconfortáveis, diferenças que gritavam ensurdecedoras e então, de repente, se calavam e tornavam-se ainda mais incômodas. Ano que começou no chão, rasteiro, de
pés descalços e com a alma cheia de urgências.
Mas era
só o início. Chegou então um tempo inesperado, anunciando que era hora de estilhaçar de vez a existência, me desfazer dos velhos moldes, abandonar pelo caminho objetos pontiagudos que eu insistia em carregar no bolso e me enxergar matéria bruta, pronta pra me transformar num algo com cores inusitadas e formas não planejadas. Fui então me desenhando com outros contornos, a imaginação ganhou fôlego e exclamações voltaram a brotar sem que fosse mais necessário fazer esforço.
2008 afinal de contas correu bem melhor do que prometia à primeira vista. Foi o ano em que aprendi a me poupar do indiferente e guardar fôlego para as fatias realmente sinceras de alegria. Ano de ponderar o sim e o não com o peso que merecem, sem deixar de, vez por outra, dar umas tacadas sem rumo para ver se descobria um horizonte desconhecido. Assim acertei, quase por acaso, esse
2009 sedento por acontecer.
Ao que tudo indica: bela jogada...
Fotos: Victor Uchôa